terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Ninguém notará meu balde d'água...


O mundo da Índia nos trás diversos ensinamentos. Estes vão muito além de você ser ou não um 'Harijan ou Dalit'. Poucos sabem, mas Akbar foi um dos maiores imperadores da Índia. Dentre as várias histórias que contou, numa delas ele havia construído uma fonte de mármore muito bonita e estava trazendo cisnes de Mansarovar, dos Himalaias. Decidiu então, que não deveria haver água na fonte. Afinal, essa era a fonte do imperador. Assim, ao invés de água, deveria haver leite.

Todo mundo na capital foi informado que deveria fornecer um balde de leite para a fonte e que ele deveria chegar ao palácio até a manhã seguinte, cedo, antes do sol nascer.

Birbal, seu bufão, disse a Akbar: Você não entende a mente humana. A sua fonte estará cheia de água pela manhã. Akbar disse: Que bobagem. É a minha ordem!. Bribal completou: Sua ordem ou ordem de qualquer pessoa - eu compreendo a mente humana. Akbar duvidando, disse: Vamos esperar, amanhã de manhã será decidido quem tem razão.

Na manhã seguinte, ambos foram ao jardim e a fonte estava cheia de água. Akbar, intrigado, disse: Isso é estranho. Como aconteceu?! Peguem algumas pessoas na estrada, seja quem for! E perguntem o que acontece! . E, para garantir, as pessoas foram ameaçadas, se dissessem alguma mentira, a vida delas estaria em risco, se dissessem a verdade, seriam liberadas. Elas então, disseram: A verdade é que toda capital traria baldes de leite. Só que um balde de água naquele tanto de leite seria completamente irrelevante, ninguém jamais viria a saber. E assim foi, todos levaram água e a fonte ficou cheia daquele líquido. Parece que todo mundo teve o mesmo pensamento - toda a capital! Nenhuma pessoa foi diferente!

A mente humana funciona exatamente da mesma forma. Então, se o mundo está nessa tragédia, são as nossas mentes humanas que o estão criando; nós estamos contribuindo com o nosso balde cheio de miséria.

Nenhuma revolução pode ter sucesso a menos que a mente humana seja compreendida e os seres humanos comecem a se comportar de maneira diferente - sem esperar que "O meu balde cheio de água não seja notado". Se todo mundo compreender que essa é a idéia que virá para todas as mentes, e decidir que "Pelo menos eu devo levar um balde de leite. Eu não devo me comportar de maneira inconsciente com a qual todos os outros estão se comportando.." É possível ter a fonte cheia de leite sim!

Transcrevi este texto do jornal Bem Estar, edição de Fevereiro, justamente pela sincronia de eu estar pensando no que ia escrever aqui e ter aberto o jornal na página que contava essa história.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Quem tem seda..


No mundo inteiro, a crise da economia move ações consideradas inéditas para a última década. Período no qual se pecou pelo excesso, onde as empresas obtiveram lucros estratosféricos e agora alegam ter de reduzir salários e até demitir em massa para que se mantenham na ativa. Financiamentos mal planejados, gastos e mais gastos para se manter a chamada ‘nova ordem mundial’ que, no meu ver, nunca existiu. Na ‘terrinha’, se a moda agora é a preocupação com os juros abusivos dos bancos, outro parêntese está sendo levantado. Segundo fonte da Fundação Getúlio Vargas, uma das instituições de maior renome nacional, 30% dos grãos e 35% da produção de frutas são jogados fora diariamente pela população.

O cálculo vai ainda mais longe, analisando uma renda familiar considerável, de até 1.000 reais mensais, presume-se que completados 70 anos, o desperdiço seria em torno de 800 mil reais. Quer dizer, somos ricos e não sabemos?! (estou com 25 anos, pela média, ainda posso tirar uns 500 mil então?!)
Brincadeiras a parte, o que sobra pra alguns, sempre falta pra outros. No interior do Maranhão, enquanto não começam as aulas, o aperto cresce nas famílias de baixíssima renda. A fome é tanta, que influencia até na frequência escolar dos alunos. Onde há merenda escolar, há mais alunos e melhores notas.
Crescemos vendo tudo de uma forma tão simples, tão básica. Você nasce, estuda, cresce, faz vestibular, estagia, se forma, arranja emprego, trabalha de segunda à sexta e, no final de semana, vai para a praia, gasta tudo que sobrou, volta pra babilônia e recomeça tudo novamente. Políticas contra os abusos de poder econômico vêm sendo tomadas, mas ainda não punem como deveriam empresas e, principalmente, a sociedade como um todo por seus eventuais desperdícios. Quando vemos avisos em ‘buffets’, alertando que o ‘desperdício será cobrado’ não devemos interpretar isto como uma simples forma de se tirar vantagem de um cliente.

Na boa, pra quem achar que isso é uma rotina mais do que o normal, parabéns! Pra quem achar que pode fazer muito mais do que isso, é a hora de mostrar que não só pode como deve. O valor do consumismo sustentável é hoje visto pela sociedade mais privilegiada como pouca coisa. É sem dúvida a maior prova de conformismo da atualidade. Mas no país onde comprar seda é sinônimo de malandragem, o valor de um inconformismo pode vir a se tornar incalculável ou, pelos menos, um gesto inicial de esperança.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Sonho de um dia de verão...



Ano novo, praia, festas, requinte, luxúria que se multiplica até mesmo nas famílias mais humildes. A champagne, brut ou doce, sempre indispensável. Uvinhas, abraços, beijos, rosas jogadas por fiéis de nossa senhora, as sete ondinhas, promessas, votos de um ano melhor e de muito mais retorno.

Tudo muito bom, mas a natureza lembrada pelas famosas corujinhas de final de ano, é dura e incontrolável lá por Santa Catarina. Muito sol, tempos e dias de tirar o fôlego por aqui, tanto pra quem acorda cedo para trabalhar, quanto pra quem estiver de férias, só curtindo.

Chega-se à praia, procurando o que eu chamaria de um gostoso ‘alívio babilônico’. Que nada! Quanto mais alto o som dos carros, mais nos perguntamos se é pior o trânsito da capital, ou a ‘magalisse’ dos competidores. Pior não é isso, o show da banda Nenhum de Nós quase não pode ser ouvido na beira da praia, pois competia com verdadeiras discotecas móveis, cada uma no seu estilo é claro. Polícia?! Não vi.

Maravilha! O ano novo passou, agora sim podemos ir à praia e curtir o mar! Nem tanto.. O mar gaúcho já não é dos mais belos e, com o excesso de algas, a sensação pra quem olha é de que está ainda mais sujo. Mas pra que se preocupar tanto não é?! Então, ajeitamos a bermuda e encaramos mesmo assim. Lamentável a tentativa, pois por detalhe, ao meu lado, uma criança não se engasga com uma tampinha ao tomar um ‘caldo’ de uma onda. Acho que o salva-vidas nunca deve ter tido tanto trabalho na vida, pois acreditar ser um afogamento e só se dar conta depois de que houve um engasgamento, deve ser um tanto desesperador. Cena forte e triste de ver.

O litoral gaúcho poderia estar mais preparado para receber os turistas e moradores que não puderam nem aproveitar com calma o litoral catarinense. Pois, quando se consegue chegar a Floripa, existe o risco de levar um dia ou mais no retorno, devido as fortes chuvas que vem ocorrendo, várias estradas se interditaram. O ‘Catarina’ procura a solução das suas feias no litoral gaúcho, tras toda a família, pra acontecer exatamente isto: ver um mar sujo, areias muito sujas, tocos de cigarros, canudinhos, tampinhas, pacotes de salgadinhos boiando no mar.. Enfim, o pouco caso da população.

Garis?! Não vi. Pode ser que um dia exista um disposto ao sacrifício de limpar as areias da praia. Banho de mar?! Só o de sol! E, mesmo assim, este vem sendo já perigoso também, mas bem mais seguro, pelo menos praquela criança. Dizem que o que os olhos não vêem o coração não sente, sorte do cego então, eu diria. A situação é verdadeiramente triste.

Mas saber viver de bem, unir os amigos, acreditar que o mundo pode ser melhor e mais sadio é admirável e seria muito mais, se a prática tomasse a frente das palavras bonitas. Quanto a mim, cego não serei, mas continuarei, com a minha sacolinha, infelizmente plástica, mas útil, na hora em que eu me sento na praia e vejo que posso mudar um pouquinho do que pra muitos, cada vez mais, vem se tornando algo tão natural.

Emmanuel D.
4º semestre jornalismo/IPA